O dinheiro atravessa instituições financeiras em segundos. Por que um resultado de exame ainda tem dificuldade para atravessar dois serviços de saúde?

O paciente como camada de interoperabilidade

O paciente muda de médico e leva uma pasta. Abre fotografias de laudos no celular. Procura um exame antigo no WhatsApp. Tenta lembrar o nome do medicamento. Às vezes, repete o exame porque o novo serviço simplesmente não consegue acessar o que já foi feito.

Essa cena revela uma forma pouco discutida de pobreza tecnológica: não a falta de sistemas, mas a existência de muitos sistemas incapazes de conversar entre si. Na prática, o próprio paciente acaba funcionando como a ‘camada de interoperabilidade’ entre hospitais, clínicas, laboratórios, unidades do SUS e serviços da saúde suplementar.

O que o sistema financeiro fez diferente

O sistema financeiro tomou outro caminho. Pix e Open Finance não funcionam porque milhares de instituições espontaneamente decidiram integrar seus sistemas. Existe autoridade regulatória, governança, padrões técnicos, responsabilidades, APIs, testes, requisitos de segurança e supervisão. O Banco Central tratou interoperabilidade como infraestrutura do sistema financeiro — não como um projeto particular de tecnologia de cada banco.

A conta silenciosa da fragmentação

Na saúde, a fragmentação cobra uma conta silenciosa. Ela aparece na repetição de exames, no tempo perdido reconstruindo histórias clínicas, na utilização desnecessária de equipamentos caros, no atraso de condutas, na redução da resolutividade das consultas e nas filas. Quando uma tomografia é repetida porque o exame anterior não está disponível, há dois custos: o financeiro e o custo de oportunidade daquela vaga para outro paciente.

Revisões científicas indicam que a troca eletrônica de informações pode reduzir exames diagnósticos duplicados e alguns custos assistenciais. E um estudo da OCDE publicado em julho de 2026 estima que o valor potencial da interoperabilidade pode representar entre 2,7% e 6,6% do gasto em saúde nos sistemas avaliados — não como estimativa específica para o Brasil, mas como demonstração da dimensão econômica do problema.

O Brasil já possui uma base

O Brasil já possui uma base importante para mudar esse cenário. A RNDS é a plataforma nacional de interoperabilidade, e o Decreto nº 12.560/2025 estabeleceu padrões para o compartilhamento de dados e atribuiu ao Ministério da Saúde a gestão dos padrões nacionais, envolvendo sistemas públicos e privados. Em julho de 2026, a federalização da RNDS entrou em nova etapa, avançando em direção aos municípios.

O desafio, portanto, já não é apenas criar tecnologia. É transformar interoperabilidade em regra estrutural: padrões comuns, conformidade, segurança, responsabilidades, integração dos fornecedores, governança e capacidade de fazer a informação acompanhar efetivamente o cidadão entre SUS, saúde suplementar e setor privado.

Uma decisão institucional

Interoperabilidade não é assunto exclusivo da TI. É política de acesso, qualidade, economicidade e segurança do paciente. É gestão da capacidade instalada. É racionalização do uso de tecnologias caras. É continuidade do cuidado. É experiência do cidadão.

Se conseguimos construir uma infraestrutura nacional para que o dinheiro atravesse instituições em segundos, precisamos perguntar por que ainda consideramos aceitável que a informação necessária para cuidar de uma pessoa permaneça presa ao lugar onde foi produzida.

Talvez o próximo salto da saúde digital brasileira dependa menos de novos aplicativos e mais de uma decisão institucional: o dado precisa acompanhar o paciente — e não o paciente continuar carregando o dado.

Referências

  1. Lei nº 8.080/1990 — Lei Orgânica da Saúde
  2. Decreto nº 12.560/2025 — Rede Nacional de Dados em Saúde
  3. Ministério da Saúde — Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS)
  4. Banco Central do Brasil — Open Finance
  5. OECD (2026) — Interoperability in healthcare: Towards an interconnected future
  6. Menachemi et al. (2018) — The benefits of health information exchange: an updated systematic review

Conteúdo técnico-informativo. A aplicação deve considerar o contexto local e as normas vigentes.

JR
Sobre o autor

Junior Romualdo

Sanitarista e consultor sênior com mais de 30 anos de atuação no SUS, experiência em gestão municipal, planejamento, financiamento e organização de redes de atenção à saúde.